O dique Nova Brasília, no bairro Sarandi, registrou vazamento na tarde desta quarta-feira (25), confirmado pelo prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. A infiltração, que foi notificada pelos moradores da região no começo da tarde, acontece na parte inferior do dique e está sendo contida com argila, uma solução considerada “paliativa” pelo prefeito.
Em coletiva em frente ao dique, Melo afirmou que “não há nenhuma informação” sobre possibilidade da estrutura extravasar e que “não tem necessidade” de evacuar o Sarandi. Moradores, que acompanham de perto o caso desde que um filete de água surgiu por baixo do dique, relatam estarem apavorados com a situação, que lembra aquela enfrentada na enchente do ano passado.
“Hoje de tarde a gente teve a notícia de que havia um vazamento. Havia suspeita, e há ainda suspeita por parte de moradores, de que esse vazamento possa ser produto de um cano, que eles chamam cano comunitário. Mas não houve, enfim, a vistoria até o fundo do cano para ver se de fato saía desse cano ou não. E é uma situação de pânico aqui no bairro nos últimos dias”, comenta Mauricio Lorenzzato, presidente da Associação de Atingidos do bairro Sarandi.
O bairro foi um dos mais afetados pelas águas em maio de 2024 e, mesmo passado um ano do evento histórico, a região permanece despreparada, sem conclusão do reforço na estrutura de proteção contra cheias no local.
Em março deste ano, as obras emergenciais, que visam elevar a cota do dique para 5,8 metros, acima do nível registrado na enchente de maio de 2024, foram interrompidas por decisão judicial. Nesta segunda (23), a Justiça negou mais uma vez o pedido da Prefeitura de Porto Alegre para retomar de forma imediata as obras e demolições no entorno do dique.
O pedido previa a demolição de casas desocupadas, destruídas ou em escombros na rua Aderbal Rocha de Fraga, área junto à estrutura. De acordo com relatório da Prefeitura, dez famílias permanecem no local. Dessas, três estão em fase avançada nas tratativas para aquisição de novas residências por meio do programa federal Compra Assistida. Já sete famílias ainda aguardam as negociações.
Na mesma coletiva realizada durante a tarde, o prefeito Sebastião Melo disse que irá desobedecer a ordem judicial e iniciará as obras “assim que a cidade secar”, já tendo informado a Procuradoria-Geral do Município sobre sua decisão. O prefeito também disse que não há previsão de chuva para o final de semana, citando o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS), com os rios “se estabilizando”. Atualmente, o Guaíba está com cota de 3,44 metros.
“Há uma amorosidade da Prefeitura em buscar soluções concretas para, ao mesmo tempo, fazer a obra e garantir o direito de moradia das pessoas. Os moradores em nenhum momento entraram na Justiça. Quem entrou na Justiça foi o Melo, que optou por cessar a negociação e testar judicialmente a sua tese”, pontua Lorenzzato. “É uma obra que é necessária, mas que precisa ser feita garantindo o direito à moradia de todas as pessoas que porventura possam ser afetadas”.
Em nota, a Prefeitura de Porto Alegre informou ao Sul21 que as equipes do Dmae permanecerão mobilizadas até a contenção da infiltração e que o prefeito determinou a adoção de “medidas preventivas” quanto ao dique do Sarandi. Ainda, a Prefeitura diz que o reforço “acontece por meio de argila, e não substitui a retomada da obra iniciada em agosto de 2024”.